2013-01-16

"Jogos Olímpicos Gay?" por João Pereira Coutinho



(artigo do jornal online Folha de São Paulo de 14-jan-2013, por João Pereira Coutinho, que pode ser consultado aqui)

"Acontece com arrepiante regularidade: entro numa livraria da Europa, vou farejando os livros disponíveis e encontro uma estante com "Literatura Gay". Mas o que será "Literatura Gay"?

Os livros respondem: é Oscar Wilde, Virginia Woolf, Truman Capote e dezenas, ou centenas, de outros autores cujos hábitos privados eu desconhecia. Mas que, pelos vistos, definem a identidade de uma obra.

A situação mais absurda aconteceu há uns anos, em Paris, quando perguntei pelos diários de André Gide publicados pela 'Pléiade'. Na minha ingenuidade, eu tinha procurado Gide entre os autores franceses.

A moça da livraria riu da minha inocência e, com olhar de desdém, informou-me que Gide estava na secção da "Literatura Gay". Logo a seguir a "Genet, Jean" e antes de "Proust, Marcel".

Existem duas formas de lidar com o problema. A primeira, mais imediata, é dinamitar uma livraria que comete aberrações destas.

A segunda, mais ponderada, é esclarecer com infinita paciência que a literatura não tem orientação sexual. Nem raça, nem credo, nem sequer "ideologia".

Oscar Wilde não é um escritor gay. É um escritor. James Baldwin não é um escritor negro (e gay). É um escritor. Evelyn Waugh não é um escritor católico. É um escritor. Céline não é um escritor fascista. É um escritor.

Claro que, na obra de cada um deles, as crenças pessoais e as práticas privadas podem encontrar tratamento literário superior. Mas é como literatura que cada um deles deve ser julgado - e classificado.

É tão absurdo encerrar um escritor nas estantes da "Literatura Gay" como, sei lá, definir Toulouse-Lautrec como um dos principais artistas na História da Arte Anã. Ou Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho de Minas, como um importante escultor na História da Arte Deficiente.

Valorizar uma obra, qualquer que ela seja, com a causa politicamente correta do momento, não é apenas um sintoma de analfabetismo. É um ato de vandalismo cultural.

E se assim é com a literatura, assim será com o desporto. Leio no "The Sunday Times" que Amsterdã, Londres e o Rio de Janeiro disputam uma vaga para organizarem os Jogos Olímpicos Gay em 2018.

Londres leva claríssima vantagem porque o "mayor" Boris Johnson, que eu tinha em boa conta, promete ceder o estádio Olímpico da cidade e outros equipamentos desportivos para que os atletas gays possam disputar as suas medalhas gay nas modalidades gay que fazem parte dos jogos gay.

Com a provável exceção da marcha atlética, eu não conheço nenhuma modalidade visivelmente gay. Não sei o que é o futebol gay, o boxe gay, a natação gay, o xadrez gay ou, minha nossa, o rodeio gay (palavra de honra).

Aliás, por falar em rodeio gay: será que o touro e o "cowboy" devem partilhar ambos a mesma orientação sexual para estarem em sintonia com o espírito da competição? Mistério.

Mistério e, já agora, um delírio que seria intolerável se alguém propusesse Jogos Olímpicos Heterossexuais. Ou Jogos Olímpicos Brancos. Ou Jogos Olímpicos Católicos, ou Judeus, ou Muçulmanos.

O que não deixa de ser irônico: em nome da igualdade, as patrulhas do "Orgulho Gay" defendem uma clamorosa forma de desigualdade. Em teoria, cultivam uma retórica de integração - e até aceitam a participação de qualquer sujeito nos jogos, independentemente da sua orientação sexual. Na prática, promovem na titulatura um tratamento distintivo muito próximo da segregação.

Combater o "preconceito" não passa por erguer novas bandeiras de singularidade. Pelo contrário: passa por derrubar as que existem, eliminando o adjetivo que acompanha o substantivo (obrigado, Gore Vidal).

Não há escritores gay. Há escritores. Não há atletas gay. Há atletas. Se o sujeito não apresenta nenhuma deficiência física ou mental, só deveriam existir uns Jogos Olímpicos para ele.

Quais? Os Jogos Olímpicos de toda a gente."

"--- João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do "Correio da Manhã", o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve às terças na versão impressa de "Ilustrada" e a cada duas semanas, às segundas, no site."



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