2015-08-31

Oliver Sacks (1933-2015)


"Subitamente sinto-me possuidor de uma determinação forte e de uma noção de perspetiva apurada. Não há tempo para o inessencial. Tenho de focar-me em mim, no meu trabalho e nos meus amigos. Deixarei de ver o "Telejornal" todas as noites. Deixarei de prestar atenção à política ou aos argumentos sobre o aquecimento global.

Não se trata de indiferença, mas de distanciamento — ainda continuo a preocupar-me com o Médio Oriente, o aquecimento global ou a desigualdade crescente, mas estes deixaram de ser assuntos meus; pertencem ao futuro. Regozijo-me quando encontro jovens dotados — mesmo o que me fez a biópsia e diagnosticou as metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos."

Extrato do artigo de Oliver Sacks, neurologista e escritor, no The New York Times quando lhe foi diagnosticado um cancro em estado terminal, em fevereiro de 2015. Ler o artigo completo aqui.

Na foto, capa da autobiografia que Oliver Sacks publicou em maio de 2015.


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2015-08-06

Um conto de amor entre samurais:Amor Prometido a um Defunto (3/3)


Após procurar longa e arduamente, Muranosuke encontrou por fim o ancião, que vivia numa cabana que tinha o telhado roto e duas portas que não fechavam. Estava rodeada por uma sebe de arbustos selvagens. Foi numa noite chuvosa que Muranosuke o visitou. O dia fora triste e desolador, e o velho homem pensara muito em Gorokitji; o seu amor pelo rapaz era tão profundo que não conseguira esquecê-lo. Muranosuke contou-lhe da morte do seu amigo e o ancião encheu-se de um grande desespero. Não parava de soluçar:
“Queria que essa notícia fosse mil vezes falsa.”

Quando se acalmou um pouco, Muranosuke olhou para ele e falou-lhe da promessa que fizera ao seu amigo moribundo. O rosto do velho homem enrugou-se e definhou. Tinha mais de sessenta anos de idade. Amar tal homem era repugnante para Muranosuke. Mas ele jurara, junto ao leito de morte de Gorokitji, amar esta criatura em lugar do seu amigo e sentia-se obrigado, pela honra dos samurais, a cumprir a sua promessa. Por isso, disse ao velho:
“Prezado forasteiro, quando o nosso amigo Gorokitji estava a morrer, pediu-me que vos procurasse e que vos amasse em seu lugar. Amai-me, então, no lugar do meu amigo Gorokitji. Sejamos amantes.”

O velho ficou muito surpreendido com esta proposta imprevista.
Ergueu o rosto banhado em lágrimas e respondeu:
“A tua proposta é completamente inesperada. Adorava o meu pobre Gorokitji mas não posso aceitar o teu amor. E sou muito velho para ser teu amante. Estou emocionado pelo teu apego a Gorokitji, mas dispensa-me de aceitar a tua oferta.”

Por muito tempo recusou, até que Muranosuke lhe disse, em desespero:
“Tenho de cumprir a promessa que fiz ao meu defunto amigo. Se vos recusardes a conceder-lhe o seu último desejo, só tenho uma forma de salvar a minha honra de samurai. Serei obrigado a fazer haraquíri pois não sou tão vil que consiga sobreviver à quebra de uma promessa.”

Então o velho, pesaroso, aceitou o amor de Muranosuke. Sentia-se tocado por tamanha lealdade e não podia recusar o último desejo do seu amado Gorokitji. Prometeram amar-se mutuamente e ser amigos para o resto da vida, e Muranosuke passou a visitar o ancião todas as noites.

Quando se soube desta história, todos elogiaram a conduta de Muranosuke e a sua lealdade ao velho homem. Não o amava, mas era seu amante para cumprir a promessa que fizera a Gorokitji.

Mais informações sobre Amor entre Samurais.
Foto: fonte Wikipedia

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2015-08-05

Um conto de amor entre samurais:Amor Prometido a um Defunto (2/3)


Um dos pajens de Yoshimasa, o filho de um samurai de uma província oriental, tinha um rosto tão belo que as flores de Quioto empalideciam à sua beira. Era um dos favoritos do xogum. Quando viu o incensário, o seu semblante alterou-se repentinamente, invadido por uma enorme angústia. O seu nome era Gorokitji Sakurai. O seu melhor amigo perguntou-lhe por que razão o incensário o comovera tanto, mas Gorokitji não lhe abriu o seu coração. Este seu amigo era também o seu muito querido amante.

A angústia acabou por deixar Gorokitji doente e, no seu leito, revelou, por fim, o seu segredo ao amigo, cujo nome era Muranosuke Higutji. A voz débil de Gorokitji vacilou enquanto falava da sua vida passada e do incensário.
“O dono deste incenso era o meu amante. Amávamo-nos um ao outro com um amor imutável. Mas ele pensava que o nosso amor poderia prejudicar a minha carreira e, por isso, deixou-me nas terras orientais e veio para Quioto. Nunca consegui esquecê-lo. Aceitei ser pajem do senhor Yoshimasa, para o seguir até aqui, esperando e confiando numa bênção da providência que me permitisse reencontrá-lo. Mas a sorte não me sorriu. Só encontrei o incensário; não encontrei o dono a quem pertencia e a quem eu amo.”
E Gorokitji chorou muitas lágrimas amargas.

Muranosuke ficou muito triste. Se Gorokitji morresse, perderia o seu amigo e amante. De dia para dia, Gorokitji foi ficando cada vez mais fraco, até que perderam a esperança de que sobrevivesse. Então, chamou Muranosuke à sua cabeceira e disse-lhe:
“Meu querido Muranosuke, depois de eu morrer procura esse velho e ama-o em meu lugar. Peço-te este favor desagradável e indelicado porque foste o meu melhor amigo. Imploro-te que satisfaças este meu último desejo, pelo amor que tens à minha alma que está prestes a deixar-te. Se lhe recusares este favor, ela não conseguirá ascender ao Céu.”
Esta prece era verdadeiramente absurda, mas Gorokitji e Muranosuke eram amigos e amantes, e estavam obrigados a sacrificar a vida um pelo outro. Por isso, Muranosuke prometeu e Gorokitji pôde morrer com um sorriso no rosto. 

Foi chorado e lamentado por todos os amigos, alguns dos quais não conseguiram conter os soluços quando se depararam com o seu belo rosto sem vida. O seu corpo foi cremado na colina Toribe e apenas os seus ossos restaram como testemunho da sua existência terrena.

(continua) 


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